* Por Marielle Feilstrecker e Mônica Beatriz Kolicheski

O modelo de produção na maioria das indústrias é linear, ou seja, extrai-se a matéria-prima, produz-se um produto, que será consumido e em seguida descartado. Com isso, há a geração de resíduos e rejeitos e a dissipação de energia ao longo do processo produtivo. Tal modelo de produção pressupõe o consumo e a retirada contínua de recursos naturais e também caracteriza-se pelo descarte acelerado e precoce dos bens consumidos. Assim, com o aumento da produção e do consumo, ocorre o aumento da extração de recursos naturais, da deposição incorreta de resíduos, provenientes do processo produtivo, muitas vezes ineficientes, e do pós-consumo excessivo.

Os resíduos gerados precisam ser descartados corretamente e existem algumas alternativas, como aterramento, tratamento, incineração, coprocessamento e reciclagem, com diversos impactos ambientais. Os aterros são a forma de destinação de resíduos mais antiga e mais utilizada no Brasil e estão cada vez mais limitados devido à restrição de espaço, especialmente nas grandes cidades. O tratamento de resíduos tem como dificuldade a existência de poucas soluções universais, além de ter um custo elevado, dependendo do tipo de resíduo a ser tratado.

O coprocessamento é uma alternativa interessante para alguns tipos de resíduos que podem ser agregados como matéria-prima da indústria cimenteira. Com relação à incineração, ela apresenta as vantagens de redução do volume de resíduos e geração de energia, podendo causar poluição atmosférica se for mal conduzida. Já a reciclagem pode constituir uma alternativa de redução efetiva de resíduos, mas só deve ser empregada se for menos danosa ao ambiente, e para tal é importante considerar todos os impactos e realizar uma análise do ciclo de vida (ACV).

Estas ações são o princípio básico do controle dos resíduos gerados pela indústria. Contudo, o foco está no destino do resíduo gerado, e, portanto, uma mudança de paradigma é importante para que a sustentabilidade seja atingida, ou seja, o foco deve ser a não geração de resíduos. Alternativas para um gestão ambiental proativa e sustentável seriam a implementação da Ecologia Industrial ou da Economia Circular.

A Ecologia Industrial é baseada em sistemas naturais como modelo para a atividade industrial, ou seja, a aproximação de um ciclo fechado, utilizando fontes de energia renováveis e conservando materiais não renováveis (mimetismo). Ela tem como foco a reestruturação dos processos produtivos e o design de produtos, dando ênfase às bolsas de reciclagem e à logística reversa, formando eco-redes para viabilizar um ecossistema sinérgico com a reciclagem de resíduos e subprodutos, a minimização do uso de recursos naturais e a adoção de uma produção mais limpa.

A Economia Circular também representa um modelo alternativo ao linear para a organização industrial, ambiental e econômica. Esse sistema possibilita a sustentabilidade dos seres humanos e do planeta e propõe a reinserção dos materiais no ciclo produtivo, visando minimizar a deposição no ambiente e evitando a geração de impactos ambientais. A Economia Circular tem sido adotada em diversos processos e propõe um novo modelo de gestão ambiental.

A Economia Circular compartilha com a Ecologia Industrial a mudança da visão da gestão ambiental de reativa para proativa, e isso faz com que ocorra uma alteração do sistema econômico de linear e unidirecional para circular e em prol da melhoria contínua. Para sua implantação, ambas dependem da avaliação da eficiência econômica e ambiental das organizações envolvidas, do estabelecimento de parâmetros de comparação e da proposição de soluções de gestão ambiental para as indústrias.

O mais importante não é o modelo de gestão adotado, seja ele a Ecologia Industrial ou a Economia Circular, e sim transformar a cultura atual de linear para circular de forma a conservar e proteger os recursos naturais, com eficiência e competência nos diversos processos produtivos.

* Marielle Feilstrecker é Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006), com especialização em Qualidade e Produtividade (1998) e Gerenciamento Ambiental na indústria (2003), e graduação em Engenharia de Alimentos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1995). Desde 2009 atua como docente no Mestrado Profissional em Meio Ambiente Urbano e Industrial da UFPR, Senai e Universidade Stuttgart. Atua nas áreas de gestão ambiental, prevenção da poluição, minimização de resíduos e desenvolvimento sustentável. mariellefr@hotmail.com  

* Mônica Beatriz Kolicheski é Engenheira Química (1992), Mestre em Tecnologia Química – PPGEAL (1995) e doutora em Engenharia – PIPE (2006) pela Universidade Federal do Paraná. Atuou como professora na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, de 1997 a 2010. Tem experiência na área de engenharia das reações químicas, tecnologias para a prevenção e controle da poluição e, mais recentemente, modelagem de poluentes atmosféricos. monica.beatriz@ufpr.br